MO-NU-MENTOS

"Mo-nu-mentos" - Exhibition of sculpture by Volker Schnüttgen

MU.SA - Museum of Arts Sintra

21 of October - 12 of December 2017

Avenida Heliodoro Salgado,
Estefânia, Sintra, Portugal
N38º48’11.67’’, W9º22’55.00’’

Tuesday to friday: 10h00 to 20h00
Saturday and sunday : 14h00 to 20h00
Closed on monday and holidays

MO-NU-MENTOS

Foi feito o convite pela Câmara Municipal de Sintra para uma exposição individual no MU.SA no contexto do meu trabalho desenvolvido ao longo de 25 anos desde que resido no concelho de Sintra.

Licenciei-me em Artes Plásticas na Universidade das Artes em Bremen em 1980. Em 1992 cheguei através de uma bolsa de estudos do Ministério de Negócios Estrangeiros Português em Portugal e devido à minha paixão pelas rochas ornamentais portuguesas decidi estabelecer-me no Concelho de Sintra.

Em 2008 terminei o Mestrado em Artes Multimédia na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Na mesma Faculdade leccionei entre 2010 e 2016 na Área de Escultura como docente convidado.

Na presente exposição estão expostos três grupos de trabalho em materiais distintos que representam momentos marcantes na minha obra dos últimos 25 anos.

Memórias

O primeiro grupo de trabalhos “Memórias” (anos 90) é esculpido em Lioz, uma pedra oriunda do Concelho de Sintra. Nas bancadas das pedreiras do Lioz, um calcário microcristalino que ganha a sua beleza pela omnipresença de fósseis, encontram-se várias qualidades de diversas tonalidades entre o branco, acinzentado, rosado, encarnado, amarelo, roxo e até o azulado. Os interiores da igreja do Convento de Mafra e da Basílica de Estrela são uns dos exemplos mais magníficos em termos da sua aplicação policromática. Mas também nas construções portuguesas do Brasil dos séculos XVII ao XIX, em especial nos monumentos da Bahia, o Lioz é o material principal, que foi levado como lastro dos navios para o outro lado do Atlântico.

O Lioz é sem dúvida a rocha que mais conta a história portuguesa, mais presente no património luso, seja em território nacional ou em todos os vestígios da presença portuguesa no mundo.

No início dos anos noventa, quando decidi viver em Portugal as chagas do incêndio do Chiado ainda estavam abertas. No interior dos prédios pombalinos ardidos podia-se observar o esqueleto arquitectónico: colunas suspensas nas paredes que perderam a suas funções, fragmentos de frisos, capitéis e pilastras, memórias do tempo pombalino.

Esta impressão inspirou-me vários trabalhos como as “Relíquias”, “Memórias de Lisboa”, “Homenagem a Zurbarán”, “Para Florbela” entre outros.

Os trabalhos aqui apresentados são os mais recentes deste grupo. O “Jogo Fatal II” é um trabalho policromado constituído por várias lajes colocadas no chão e por bolas de pedra, criando uma paisagem. As bolas são todas modeladas de forma individual e personalizado. Parece um jogo em suspensão, a sua petrificação, o monumento de um momento.

O segundo trabalho “Satzzeichen I-III” (Sinais de Pontuação) é composto por três elementos na parede representando símbolos heráldicos: um quadrado azul, um círculo encarnado e um sautor* acinzentado. São lápides, brasões, monumentos enigmáticos que escondem os seus propósitos da comemoração de um acontecimento importante, ou homenagear uma figura ilustre: são como um texto sem palavras construído apenas por sinais de pontuação.

   *sautor ou cruz de Santo André é um símbolo heráldico na forma de uma cruz diagonal ou letra X

Tropeços

O termo “tropeço” significa obstáculo, algo em que se tropeça. Entretanto no Alentejo a palavra tem outro significado: é um pedaço de madeira ou cortiça que serve para se sentar, seja no campo para repousar ou dentro de casa em frente à lareira para aquecer. Neste sentido o tropeço, o obstáculo inesperado, torna se um objecto com um valor positivo que nos oferece algum conforto inesperado no meio do nosso caminho.

A série de esculturas “Tropeços” (2006/ 2007) são todos esculpidos em madeira branca do mesmo tronco de choupo. O título joga com essa ambivalência da palavra. São de médio/ pequeno formato colocados no chão no meio do caminho, obstáculos esculturais, modulados de uma geometria simples, com aberturas quadradas ou rectangulares. Apesar das formas geométricas esculpidas nos pedaços do tronco não negam a sua origem orgânica.

 São como jogos de encaixes, pequenas paráfrases de arquitectura ou de mobiliário porém recusam qualquer utilidade. Como escreveu Rui A. Pereira são esculturas a “avolumar o habitat” que “no entanto, são organizadas para se construir um sentido, uma linguagem que resulta num diálogo entre objectos, objectos que dão forma e constroem as ideias; portanto, o orgânico e o inorgânico interagem construindo este espaço habitado.”*

   *Rui A. Perreira, “Avolumar o habitat – Escultura de Volker Schnüttgen”, texto do catálogo da exposição com o mesmo título, Beja 2009

Espaços Secretos

O terceiro grupo “Espaços Secretos” é representado por duas esculturas inéditas de grande porte em granito no exterior do museu. São configurações de pedra como padrões, que estabelecem sinais, marcam lugares, criam espaços interiores que podem ser descobertos. As faces exteriores destes blocos mostram a clivagem natural dos seus cristais, resultado duma técnica de corte tradicional com guilhos (cunhas de aço). Dentro destes monólitos projecto a minha ideia escultórica, formas geométricas, criando espaços interiores arquitectónicos. O rigor da minha modulação contrasta com a forma orgânica da matéria-prima, cortes rectos acentuam a irregularidade dos blocos. As faces interiores são polidas e reflectem a luz do ambiente, oferecendo aberturas sobre o interior íntimo do bloco, bem como vistas para a paisagem circundante, fundindo o interior com o exterior como parte de um todo. O espaço vazio ganha a mesma importância que a densidade cristalina da pedra e conduz a leitura para os princípios da escultura: a organização do espaço através da presença e ausência da matéria, criando espaços simbólicos, lugares tanto para o individuo como para a comunidade.

Neste sentido Hélder Gomes escreveu sobre as minhas esculturas:

“As linguagens da arte, e de um modo particular as linguagens da escultura, constituem um campo privilegiado de construção e demarcação do espaço simbólico das relações identitárias. A escultura, enquanto espacialização tridimensional da experiência cultural, é particularmente apta a constituir-se como ferramenta de demarcação espacial das relações humanas. Os lugares da comunidade são lugares de encontro e de desencontro, de identificação e de diferenciação, de afirmação e de interrogação, lugares do corpo e lugares do pensamento. São estes os lugares dos trabalhos de Volker Schnüttgen.”*

   *Helder Gomes, “Volker Schnüttgen: Comunidade e Espaço Simbólico”, texto do catálogo da exposição “4 Lugares do Silêncio”, Palácio da Brejoeira, Monção, 2011

Catalogue of the exhibition

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