O VAZIO PREENCHE-SE

"O Vazio Preenche-se" - Sculptures by Susana Aleixo Lopes

Curator
Volker Schnüttgen

Biblioteca da FCTNova, Caparica

Quinta da Torre, Campus Universitário, 2829-516 Caparica
5 of December 2017 - 28 of January 2018
working days  from 9h00 to 20h00

O Vazio Preenche-se - Escultura da Susana Aleixo Lopes

A principal diferença entre o processo do trabalho do cientista e do artista é a relação com a objectividade e subjectividade. Enquanto o cientista tenta evitar qualquer manipulação durante a observação do seu objecto da investigação, o artista parte da sua subjectividade, de si próprio. Mesmo analisando o mundo fora de si assume uma visão desse mundo filtrado pelo seu próprio olhar. Consequentemente qualquer obra de arte tem sempre alguma parte autobiográfica incluída.   

Defendo porém que uma obra bem concebida ganha a sua própria autonomia: não necessita do autor, a presença dele ou uma explicação. Necessita do público, da subjectividade do observador, da sua leitura. Esta invocação do público com a obra, a soma de múltiplas interpretações subjectivas, transforma-a num valor comum, e no caso das grandes obras-primas numa propriedade cultural universal.

Na exposição presente “ O Vazio Preenche-se” na Biblioteca da Universidade Nova de Lisboa na Caparica a autora Susana Aleixo assume a sua subjectividade no processo criativo por excelência. Nasceu naqueles rochedos rodeados pelo infinito do oceano – eternamente em movimento - no meio do Atlântico. Onde até a terra sólida de vez em quando se mexe.

Em 2007 entrou na Faculdade das Belas Artes da Universidade do Porto e a partir daí começou a odisseia no vasto oceano da Arte Contemporânea. É uma navegação sem bússola, sem leme, no vazio da escuridão, sem luar com as estrelas apagadas.

Os objectos das transformações da Susana são como madeiras flutuantes, encontradas a cruzar o seu rumo no vazio do mar, acolhidas e guardadas com muita atenção. Objectos aparentemente pobres tornam-se nas suas mãos nobres. Amacia-os com todo cuidado até aparecerem os anéis anuais com toda a clareza. Ganham uma superfície suave com um toque sensual. Cava o centro de uma rodela de madeira minuciosamente até encontrar a medula, o embrião da árvore, e protege-a com uma lente de vidro. Acrescenta pequenos objectos – a cor dourada do latão - que como um colar ou anel de joalharia acentuam a beleza do material. Queima as superfícies com maçarico a mostrar a essência do Ser orgânico: o carbono de um negro absoluto.

Os trabalhos mais espaciais de grande porte têm tábuas verticais apoiadas por polígonos de contraplacado queimado que se estendem no espaço. São fixados por dobradiças de latão acentuando a sua mobilidade. Apesar da sua escala não constituem uma estabilidade estatuária, bem pelo contrário: sugerem uma grande fragilidade, suspensos no momento durante a permanente metamorfose.

O processo de criação da Susana não está baseado na certeza de uma evidência. É o princípio da dúvida que a motiva a pisar terrenos agrestes, entrar em becos sem saída a procura de objectos e materiais cheios de histórias, vida, personalidade e afectos.

Sintra, 5 de Novembro 2017

Volker Schnüttgen 

Catalogue of the exhibition

available soon

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